terça-feira, 14 de outubro de 2014

Poema: "José (E Agora José?)",
de Carlos Drummond de Andrade.


Hoje é dia de poema! \o/
     O poema escolhido, "José (E Agora José?)" de Carlos Drummond de Andrade é um poema um tanto triste e pessimista. Mostra o desânimo da vida de alguém que vive sem sentido, perdido, que não possui mais nenhum objetivo, sonho ou propósito de vida. Um alguém, um José, que apenas vai seguindo a caminhada, dia após dia, à espera de algo, de um destino incerto. 
"[...] você marcha, José!
José, pra onde?"
     É um poema um tanto real, pois remete à existência de muitos "Josés", que vivem na indiferença, no abandono, no esquecimento e na solidão. Uma vida frustrada de alguém que não sabe mais o que fazer, que quer algo que não pode mais realizar. Vamos conferir?


E AGORA, JOSÉ?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?
                                                                                                        -- Carlos Drummond de Andrade

     O poema é marcado pela repetição (se... se... se.../ não veio... não veio... não veio.../está sem... está sem... está sem.../etc.). A maioria dos verbos estão no passado ("[...]a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou"), remetendo a um passado que não se satisfez, que passou vazio e apagado, trazendo um presente frustrado e um futuro incerto. Além disso há muitas interrogações e questionamentos ("e agora? E agora, José?")
"Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…"
     Além disso, não sei se foi só eu que percebi e se realmente faz algum sentido, mas esse trecho acima, quando lido em voz alta, parece conter em seu som o ritmo da valsa e, curiosamente, o quarto verso desta estrofe faz uma referência à própria valsa.
     Para finalizar, separei um vídeo muito bacana de um grupo chamado Coesão Poética, que fez a interpretação desse poema.

E aí, o que acharam? Já conheciam o poema?
Espero que tenham gostado! ;)
Por Lerissa Kunzler

16 comentários:

  1. Oi Lery!
    Eu não conhecia o poema, mas gostei bastante!
    Profundo e realista!
    Beijos

    Li
    literalizandosonhos.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Profundo e realista define bem o poema! hahaha
      Obrigada pela visita! xD

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  2. Oi Lery!
    Eu adoro esse poema :)
    Está entre os meus favoritos.

    Beijos
    ​​​​​​LiteraMúsicas - Tem promoção especial de Halloween lá no blog. Não fique de fora!

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    Respostas
    1. Também gosto bastante dele! hahaha
      Opa, vou lá conferir.
      Obrigada pela visita! :D

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  3. Olá Lery!

    Nossa, quanto tempo não venho aqui. Me desculpe!
    Adoro Carlos Drummond de Andrade, e este poema é um dos meus favoritos. Esses dias mesmo eu recitei uma trechinho lá na faculdade kkk.
    Abraços

    estantejovem.blogspot.com.br

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    1. Capaz, fico feliz que esteja por aqui novamente! :)
      Hahaha Que legal, recitar poemas é muito bacana!
      Obrigada pela visita! xD

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  4. Não conhecia esse poema, mas achei ele incrível!
    Tão profundo...

    bibliotecacolorida.blogspot.com.br

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    1. Realmente, bem profundo! :)
      Obrigada pela visita! xD

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  5. Não conhecia ainda o poema, e infelizmente é a realidade de muita gente mesmo

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Tem resenha nova de "A Lista Negra" no blog, vem conferir!

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    1. Verdade, né?! Tem muitos "Josés" na realidade.
      Obrigada pela visita! xD

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  6. Esse poema é muito marcante para mim, pq na escola o professor colocou ele musicado e sempre que escuto a música me lembro do poema. A realidade de muita gente é assim, principalmente para aqueles que não tem acesso a cultura ou para aqueles que tem acesso mas não se sentem inseridos e se entregam a rotina da vida de forma mecânica. Triste!!!

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    1. Exatamente, é uma triste realidade! É decepcionante pensar que muitas pessoas não aproveitam a vida e o tempo que têm.
      Obrigada pela visita, Aline! xD

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  7. Esse poema é incrível! Mostra a condição de indeterminação do sujeito no mundo. Sem se situar em lugar nenhum. "E agora, José?" conota certa indagação sobre a impossibilidade de seguir um rumo determinado na vida. Que difícil a vida desse cara?!

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    Respostas
    1. Exatamente, é um indivíduo perdido, que não sabe o que fazer da vida, nem para onde ir. É uma realidade bem triste e muito difícil, com certeza.
      Obrigada pela visita! xD

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  8. http://letras.kboing.com.br/#!/paulo-diniz/e-agora-jose/

    Neste link, há uma versão do poema, interpretado do Paulo Diniz! Música das boa!

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